O roteirista e diretor Paul W.S. Anderson, que faz dessas adaptações seu nicho desde Mortal Kombat (1995), vem cada vez mais dando a seus filmes uma interface de jogo - como já prenunciava Corrida Mortal, com seus enunciados dispostos na tela como se fossem HUD (heads-up display,
as informações vitais de energia e munição nos cantos dos jogos).
O que não deixa de ser uma inversão curiosa: enquanto a tendência em
games, há anos, é eliminar o HUD para deixar a experiência mais
próxima do cinema (a própria Capcom fez isso com seus Resident Evil),
Anderson deixa no HUD, ou no "extra-filme", por assim dizer, as
informações mais básicas que botam a narrativa em movimento.
Isso já fica claro no começo de Retribuição. Como a essa altura das reviravoltas ninguém entende mais o que se passa na cruzada de Alice (Milla Jovovich)
contra a Corporação Umbrella, a personagem surge em um monitor para
fazer um resumão dos quatro filmes anteriores. É a primeira pista
dessa tendência de Anderson de realocar no "extra-filme" tudo aquilo -
contextualização, exposição - que não se refere à ação em si. Em
certa cena, em que Jovovich ensina Michelle Rodriguez a usar uma arma, ela diz que "é como uma câmera, basta apontar e atirar".
Essa frase sintetiza a obra de Anderson - uma visão de cinema ao
mesmo tempo simples e simplista -, que trata o espaço diegético como o
domínio da ação e da ação apenas.
Talvez seja pensando nisso que Anderson promove neste quinto filme a
volta de uma figura que estava ausente desde o primeiro longa, a
inteligência artificial Rainha Vermelha. A menininha sinistra
computadorizada (agora interpretada por Megan Charpentier) é não apenas o principal elemento do "extra-filme" em Retribuição,
dando informações que situam e movem a trama, como também se
comporta como mestre do jogo, acionando cenários e chefes-de-fase a cada
missão de Alice e seus amigos. O fato de Retribuição se
ambientar inteiro numa instalação de testes da Umbrella, de onde a
heroína precisa fugir, obviamente dá ao filme uma cara de game, mas é
mais nas escolhas de direção de Anderson do que no argumento em si
que esse parentesco se estabelece de fato.
Até aqui, nada de muito espetacular, constatações apenas. Já houve
filmes que também tentavam emular a fruição dos games (como a tosca
cena em primeira-pessoa de Doom - A Porta do Inferno), Gamer
continua sendo o mais arrojado deles todos, e essa disposição de
Anderson dividir as cenas em mapas e grades tridimensionais talvez
seja só uma forma de copiar Tron (a trilha sonora assinada pela dupla tomandandy chupa Daft Punk vergonhosamente). O que diferencia Resident Evil 5 - Retribuição
mesmo é que, no meio de toda a mecanização (do universo do filme e
da própria narrativa), Milla Jovovich continua sendo singularmente
humana, uma presença falha - o corpo magro, o timbre de voz vacilante,
o sorriso ainda de adolescente - à prova de automações.
Anderson, que afinal de contas é o marido da atriz, sabe perceber as
qualidades de sua musa; e a luta da humana para não ser apenas um
clone ou um zumbi, no fim, acaba sendo o grande mote de Alice. Muitos
fãs torcem o nariz, porque a personagem não existe nos games de Resident Evil
(aliás, é dos jogos que sai um dos poucos alívios cômicos deste
quinto filme, uma cena sobre a relação de Leon e Ada Wong), mas Milla
Jovovich fornece, desde o momento crucial em que surge seminua numa
câmara kubrickiana de isolamento, o necessário lastro físico que
garante que Retribuição não seja só um exercício de
metalinguagem para o espectador médio, um filme onde os personagens
dizem que a Máquina é capaz até de fazer nevar - e onde, na cena
climática de luta, constatamos que a neve cai de verdade.
Fontes:Omelete
Creditos:Onaga
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ASS:Henrique P.Brandão-ADMIN