O Vingador do Futuro (2012) | Crítica

Clássico de 1990 dirigido por Paul VerhoevenO Vingador do Futuro (Total Recall) foi um dos tantos filmes daquela época que sacudiram o cinema de ficção científica pela mistura inusitada de ação, humor, reviravoltas inteligentes e surpreendentes efeitos especiais. Sob a inspirada condução do diretor, que realizou outro filme extremamente apreciado do gênero, RoboCop, as ideias difíceis de Philip K. Dick (alucinado autor cujas obras originaram filmes como Blade Runner Minority Report), ganharam uma cobertura pop que mesmo hoje, 20 anos após seu lançamento, mantém o filme como um dos mais cultuados da sci-fi.

Assim, Len Wiseman - diretor camarada, com quem a Sony está habituada a trabalhar na série Anjos da Noite - teve a impossível tarefa de tentar equiparar-se a Verhoeven. Obviamente, não conseguiu. O filme abusa dos melhores efeitos especiais e eleva a ação do original à décima potência, com a edição de Christian Wagnerusando a velocidade para supervalorizar as coreografias de luta e perseguições, como já havia feito em suas colaborações igualmente frenéticas com Michael Bay eJustin Lin.
Sobra deslumbre visual, mas falta estofo. O longa tira da história seus elementos mais psicodélicos, que davam boa parte do charme do original. Fica a estrutura, mas saem os mutantes, os telepatas, os alienígenas e Marte no remakepara entrar a disputa por territórios em um planeta devastado por uma guerra química. Curiosamente, foi mantida a famosa "prostituta dos três peitos" do original, algo que não faz sentido, já que os mutantes foram removidos da nova história, que preza pelo realismo. Puro"fan service" (que reduz o fã do original a um fetichista) e uma menção, entre algumas outras, do filme de Verhoeven apenas como alívio cômico.
O abismo entre os dois protagonistas - Arnold Schwarzenegger e Colin Farrell - também é demérito ao novo. Um é o maior ícone do cinema de ação de todos os tempos. O outro é esforçado, mas problemático. Bom ator, mas não tem o carisma necessário para segurar um filme assim. Enquanto Schwarzenegger fazia caras e bocas e gritava com seu sotaque carregado, Farrell se esforça para parecer perdido e aflito, o que ajuda a dar a impressão que este O Vingador do Futuro se leva a sério demais.
A ficção científica costumava olhar para o futuro com uma mistura de fascínio, preocupação e otimismo. Mestres como Isaac Asimov Arthur C. Clarke ajudaram a evoluir a raça humana através de seus sonhos. Philip K. Dick, por sua vez, era o oposto disso; a nova geração, obcecada com as drogas sintéticas e que via o futuro do planeta (e além) com enorme pessimismo. Suas ideias foram, em parte, o berço do movimento cyberpunk - e o novo Vingador do Futuro acompanha isso. Por esse lado, o remakeé mais próximo das visões de K. Dick e do "alta tecnologia, baixa qualidade de vida" do sub-gênero criado por William Gibson. É mais sombrio, mais realista, mas muito menos divertido.
Talvez se eu não conhecesse - e adorasse - o filme de 1992, poderia até me empolgar mais com a refilmagem. Afinal, a estrutura básica da trama é igualzinha, Kate Beckinsale está surtada e eu poderia ver o brilhante Bryan Cranston (o novo Cohaagen) até em comercial de pasta de dente. Mas a ausência de qualquer inovação verdadeira, de criatividade, faz com que este O Vingador do Futuro pareça uma versão escovada com palha de aço do original.
Fontes:Omelete
Creditos:Onaga

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