Resenha de HQ: Crise Final – O Dia em que o Mal Venceu

 


Roteiro: Grant Morrison | Arte: J.G. Jones, Doug Mahnke, Marco Rudy | Período: 2008–2009

Se Crise nas Infinitas Terras foi sobre geografia e Crise Infinita foi sobre legado, Crise Final (Final Crisis), publicada entre 2008 e 2009, é sobre a própria estrutura da realidade e a própria linguagem mística das histórias em quadrinhos.

Escrita pelo lendário e genial Grant Morrison e ilustrada com maestria por J.G. Jones, Marco Rudy e Doug Mahnke, esta não é uma saga comum de super-heróis. É uma obra de ficção científica metafísica, densa, poética e apocalíptica, onde o mal supremo não quer apenas dominar o mundo — ele quer corromper o próprio conceito de existência.

1. A Premissa: Darkseid e a Equação Antivida

A genialidade de Grant Morrison começa na premissa: após uma guerra devastadora nos céus que destruiu os Novos Deuses, os deuses de Apokolips caíram na Terra. Mas eles não caíram como gigantes de armadura; eles caíram como "ideias" e parasitas, infectando corpos humanos comuns.

Darkseid agora opera nas sombras do planeta, disfarçado como um gângster decadente chamado Boss Dark Side. Quando ele finalmente dispara a Equação Antivida através da internet e das redes de comunicação globais, ele escraviza a mente de bilhões de pessoas instantaneamente. Não há batalha física para impedir a invasão: metade da humanidade simplesmente perde o livre-arbítrio em um piscar de olhos, transformando-se em extensões da vontade de Darkseid. Como a própria HQ define de forma arrepiante: "O Mal Venceu."

2. Momentos Históricos e o Sacrifício de Ícones

Crise Final é famosa por conter alguns dos momentos mais chocantes e discutidos da história da DC Comics:

  • O Retorno de Barry Allen: O Flash da Era de Prata, que estava morto desde 1985, retorna correndo da própria morte para tentar impedir a queda do multiverso, correndo ao lado de Wally West contra a própria personificação da morte (o Corredor Negro).

  • O Confronto Final de Batman: Morrison constrói a cena definitiva do Cavaleiro das Trevas. Batman, o homem que odeia armas de fogo, quebra sua única regra sagrada ao usar uma arma com uma bala de radion (o elemento que mata deuses) para atirar em Darkseid. Em resposta, Darkseid o atinge com a Sanção Ômega, aparentemente matando o herói. A imagem do Superman carregando o corpo carbonizado do Batman é uma das mais marcantes de todos os tempos.

3. Metafísica e a Arte da HQ

O traço de J.G. Jones e Doug Mahnke entrega uma atmosfera suja, opressiva e surreal. À medida que a realidade vai se desfazendo sob o peso de Darkseid (que está literalmente arrastando o multiverso para um buraco negro de niilismo), as páginas começam a quebrar as estruturas tradicionais.

Morrison usa a saga para fazer uma analogia sobre o poder da narrativa. No clímax, quando a ciência falha, o Superman precisa usar a lendária Máquina do Milagre — um dispositivo que traduz pensamentos em realidade. O Superman não vence Darkseid com um soco; ele o vence cantando uma nota musical pura que vibra na frequência exata do multiverso, destruindo a frequência do mal de Darkseid. É pura poesia em forma de quadrinhos.

Crise Final não é uma leitura fácil ou mastigada. Ela exige atenção, releituras e um conhecimento prévio da cosmologia da DC (especialmente o Quarto Mundo de Jack Kirby). Porém, para quem se permite entrar na mente psicodélica de Grant Morrison, é uma das obras mais recompensadoras, corajosas e filosoficamente profundas já publicadas pelo selo. Ela trata os super-heróis não como justiceiros de colante, mas como conceitos mitológicos vivos lutando pela alma da humanidade.

Nota da HQ: 9.7/10 — Complexa, grandiosa e absolutamente genial.

Créditos: Henrique

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