Resenha de HQ: Crise Infinita – O Peso do Legado e o Colapso do Heroísmo

Roteiro: Geoff Johns | Arte: Phil Jimenez, George Pérez, Ivan Reis e Jerry Ordway | Período: 2005–2006

Lançada entre 2005 e 2006, Crise Infinita (Infinite Crisis) não é apenas uma sequência direta da histórica Crise nas Infinitas Terras de 1985; é uma das maiores desconstruções e reconstruções do próprio conceito de heroísmo já feitas nos quadrinhos.

1. O Contexto: Um Universo Despedaçado

Para entender o impacto de Crise Infinita, é preciso lembrar que a Trindade da DC (Superman, Batman e Mulher-Maravilha) estava completamente fraturada por causa dos eventos de Crise de Identidade e Projeto OMAC. O Batman não confiava em ninguém e tinha criado um satélite espião; a Mulher-Maravilha cruzou a linha moral ao quebrar o pescoço de Maxwell Lord em rede mundial; e o Superman se sentia impotente diante de um mundo que parecia ter perdido o cinismo dos heróis dos anos 90, mas também não aceitava mais o otimismo de outrora.

2. A Premissa: A Revolta dos "Heróis Impecáveis"

É nesse cenário de desesperança que Geoff Johns entrega a sua maior jogada de mestre. Os sobreviventes da Crise original de 1985 — o Superman da Terra-2 (Kal-L), a Lois Lane da Terra-2, o Alexander Luthor da Terra-3 e o perturbador Superboy-Prime — que estavam isolados em uma "dimensão paraíso", decidem retornar.

Mas eles não voltam para ajudar; eles voltam porque estão enojados com a escuridão do Universo DC atual. Alexander Luthor e o Superboy-Prime decidem que o universo atual falhou e que eles precisam destruir a realidade para recriar a "Terra Perfeita".

O que se segue é uma tragédia em escala cósmica. O Superboy-Prime, em especial, serve como uma crítica ácida de Geoff Johns ao fã de quadrinhos tóxico: um jovem que tem poderes de um deus, mas a maturidade de uma criança mimada, que destrói e mata heróis queridos (como os Titãs) gritando que "tudo era melhor antigamente".

3. A Arte: O Espetáculo do Detalhe Cósmico

Falar de Crise Infinita sem exaltar a arte é um crime. Embora Phil Jimenez tenha desenhado a maior parte da saga, a presença de George Pérez (desenhando sequências específicas e capas) e o acabamento monumental dão à obra o status de "arte sacra" dos gibis.

  • Cada página é um absurdo visual. São dezenas de heróis e vilões dividindo o mesmo painel, onde você consegue identificar o rosto, o uniforme e a expressão de cada um, desde o Superman até o herói mais obscuro do terceiro escalão da DC. A batalha em Metrópolis e o confronto no espaço são de tirar o fôlego.

Crise Infinita é o ápice do que uma grande saga de quadrinhos deve ser: ela tem consequências reais, um escopo gigantesco, vilões assustadores e, acima de tudo, um coração. Geoff Johns entendeu que para consertar a DC, os heróis precisavam lembrar o porquê de serem símbolos de inspiração, e não de medo. O sacrifício de Kal-L e a união final da Trindade fecham a obra como uma carta de amor à Era de Ouro e de Prata.

Nota da HQ: 9.8/10 — Um clássico moderno essencial e épico em cada página.

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